Escolha uma Página

Saiba sobre a incrível história das Camisetas.

Se você sempre teve curiosidade, dúvidas, ou queria mais informações sobre o universo das camisetas, devo dizer que começo aqui uma “saga” contando tudo o que li e aprendi sobre a sua história.

Não precisa ser tão apaixonado por camisetas, como eu ,pra entender o quanto é interessante toda a sua trajetória. Como criador e ilustrador de estampas, meu interesse vai além de enxergar ali um pedaço de pano e cada vez mais que me aprofundo sobre esse universo, mais me apaixono. Nesse post quero compartilhar um pouco o que sei e pesquisei sobre o tema. Vou começar falando sobre os “ancestrais” da nossa querida T-shirt até chegar aos novos tempos.

Mas espera aí, porque T-shirt? Comecemos pelo nome de como é conhecida lá fora. A camiseta é chamada ao redor do mundo pelo nome em inglês de “T-shirt“, sempre me perguntei de onde viria esse nome e nunca percebi que a resposta estava na minha frente. O T é o próprio formato da “Shirt” (que significa camisa em inglês ) quando vista com as mangas abertas. Mas a palavra “T-Shirt” entrou para o dicionário somente na década de 20!

Muito se conhece sobre a sua história recente, após os anos 50, onde ela se popularizou, mas é intrigante descobrir que tudo se iniciou bem lá atrás, há milhares de anos. Dizem que os antepassados foram as túnicas usadas no império grego e romano, por volta de 700 a.C, que deram origem aos camisolões usados como roupas de baixo na Idade Média. Porém, descobri que foi encontrado congelado nos Alpes, em 1991, um homem do período Neolítico, de 5.300 anos atrás, hoje conhecido como Ötzi, o Homem do Gelo, que usava restos de uma tanga! Clique aqui e leia matéria completa da Scientific American Brasil detalhando, inclusive, toda a sua vestimenta.

“Ötzi vestia roupas quentes: perneiras, tanga e casaco feitos de pele de veado e de cabra, além de uma capa forrada de grama e fibra”

E ainda, em 1323 a.C., no Egito, o jovem faraó Tutankhamon foi enterrado com tangas para não chegar peladão no paraíso.

Outra aparição interessante das nossas queridas camisetas, pode ser contada através da estátua “O escravo Moribundo” feita por Michelângelo, que mostra um homem todo nu, com exceção de uma peça de roupa que ele tenta tirar acima do peito.

“Na história da arte, esse pode não ser o único nem o primeiro exemplo de uma camiseta, mas é certamente o mais triunfante”,
Olney Krüser no livro A História da Camiseta.

Escravo Moribundo (1513) – Michelangelo Buanarroti.

 

Mas o que tem a ver esse papo de tanga com camisetas? Vou tentar explicar: por muito tempo, tanto os homens como as mulheres usavam algum tipo de roupa de baixo, feito à mão, com tecidos bem resistentes e laváveis. Pois os tecidos e malhas de algodão em grande escala só vieram no Século XVII depois da invenção de máquinas de fiação hidráulica, o descaroçador de algodão e a invenção da máquina de costura em 1846, levando a produção em massa também de roupas de baixo. Com a Revolução Industrial todo o processo foi acelerado e o tal do “Fordismo” , como chamamos popularmente o modelo de produção em série inventado por Henry Ford para a montagem de carros, impulsionou ainda mais a imagem da produção massificada, fazendo com que as fábricas que trabalhavam na produção de roupas íntimas produzissem em grande escala. Sempre que eu penso em Revolução Industrial, me vem aquela imagem do Chaplin apertando parafusos dentro de uma fábrica.

Charles Chaplin em “Tempos Modernos”

 

No final do século XIX e início do XX, os homens usavam aquelas ceroulas (union suits), que mais pareciam com um macacão que cobria o corpo inteiro, com botões e aberturas estrategicamente pensadas para o cara fazer todas as suas necessidades sem precisar tirá-lo, haja praticidade!! Eram chamadas de segunda pele e usadas sempre por baixo de sua roupa de trabalho ou passeio, como naquele tempo não era comum ter tanta roupa no guarda-roupas, ele servia para absorver o suor do corpo e proteger a sua roupa principal.

Aí, depois de 1911, começam a aparecer roupas de baixo com duas peças separadas, trazendo uma certa liberdade e conforto. Na década de 30 surge a primeira loja em Chicago especializada em roupas de baixo, com as primeiras versões de cuecas e com as ceroulas sendo repartidas em duas peças, nascendo a nossa querida T-Shirt.

Muito de nossa tecnologia atual, pode ser creditada a indústria da Guerra, calma, não estou dizendo que Guerras são boas, mas muito dos avanços foram obtidos através dessa motivação, como por exemplo o nosso querido micro-ondas, GPS, câmeras digitais, produção em massa de antibióticos, computadores e até a Internet, essa tecnologia que nos conecta nesse exato momento. As roupas de baixo não foram diferentes no sentido da influência. Durante a Segunda Guerra Mundial, tanto o Exército quanto a Marinha Americana incluíram as camisetas como roupas de baixo em seus uniformes. Shorts ajustáveis, camisetas de manga curta e, posteriormente, as camisetas sem manga, todas usadas por de baixo do tecido, foram desenvolvidos para se adaptarem melhor aos soldados. Segue aqui link de texto com o regulamento do uniforme dos fuzileiros onde você consegue encontrar a indicação do uso da camiseta abaixo dos uniformes.

navy us military united states usa flag america submarine white history photo 1913 tshirt tee

Mecânicos da marinha tiram fotos com sua camisetas brancas.

 

Acho que agora começa a ficar claro toda essa volta que eu dei, certo? Como era uma Guerra Mundial, houve uma escassez de matéria-prima, o que foi dificultando o acesso das peças aos soldados, mas elas se tonaram tão populares durante a Guerra, que os soldados que voltavam para casa, continuaram a usar no dia a dia (como roupa de baixo).

Mas aí vieram os anos 50! Até essa década, as camisetas eram consideradas roupas de baixo, sua maior função era a de proteger o homem da transpiração e outros incômodos. Quando elas davam o “ar da graça” era mais por que o cara queria se refrescar ou mesmo tinha que usar como uniforme, por isso ela aparecia sendo usada por verdureiros, jornaleiros, fazendeiros, mineradores, mecânicos e por aí vai…

bbc uk america usa us construction worker 1940 white tshirt tee

Construtor trabalhando.

 

Porém, em 1955, isso começa a mudar. Quando o diretor americano Nicholas Ray (Dirigiu “Juventude Transviada”, “Quem foi Jesse James?”, “O rei dos reis”, entre outros) resolve filmar a história de um garoto rebelde que retrata muito bem a juventude americana daquela época, jovens que voltavam da Segunda Guerra e que tinham muita dificuldade em se reintegrar à sociedade, ele acerta em cheio. Como todo grande filme, a escalação do elenco é primordial, Nicolas Ray escolhe um ator em início de carreira que acaba se tornando um dos maiores ícones de sua geração, sendo eternizado no papel de Jim Stark, James Dean vira um sucesso estrondoso, com uma camiseta branca e sua jaqueta de couro por cima. Claro que outro dos maiores ícones do cinema americano não poderia ficar de fora, Marlon Brando (nos filmes “Um Bonde Chamado Desejo” e “O Selvagem”) exibia também a sua roupa de baixo no cinema. Ambos são apontados como pontos principais na transformação de comportamento, associando a camisetas a rebeldia e contestação, ajudando a tornar um item considerado “underware” em “outwear”

Marlon Brando em “Um Bonde Chamado Desejo”

James Dean em “Rebelde Sem Causa”

 

A camiseta usada pelos jovens foi uma forma de quebrar com o jeito formal e tradicional de como se vestia na época, antes usava-se ternos e criava-se uma certa formalização, isso tudo foi quebrado da forma mais simples possível, com a roupa de baixo ganhando destaque, o que ajudou a popularizar a ideia ao redor do mundo rapidamente.

Bom, eu não paro por aqui, vou continuar contando essa história, agora entrando em uma fase que eu particularmente gosto muito! Mas essa fica para o próximo post, ok? Assim ele fica mais completo e menos cansativo 🙂

Algumas referências:

The T-Shirt Book – Charlotte Brunel, Assouline, EUA, 2002
A História da Camiseta – Vários autores, Hering, 1988

Compartilhe:

Ulisses Amorim
Co-fundador da marca Oh Sheep! É Gerente de Conteúdo, escritor e um dos ilustradores da Empresa. Quando não está exercendo essas funções, gosta de trabalhar atuando nos Teatros de São Paulo, nas horas vagas está em alguma sala de cinema ou qualquer outro bar no centro de São Paulo.